O melhor dom do mundo

Minha definição de traquejo social é a capacidade que determinada pessoa tem de se aproximar das outras sem parecer inadequada. Dessa forma, quem não tem nenhum traquejo social parece inadequado até quando chama o irmão para o cinema enquanto quem tem todo o traquejo social do mundo pode beber coca-cola do copo de um completo desconhecido e fazer a coisa toda parecer muito natural e amigável.

Nem preciso comentar que estou no extremo da falta de traquejo social. 90% da minha falta de interação social resulta da costumeira falta de vontade de interação. Ou desprezo as pessoas (feio, mas fazer o que?), ou até respeito e admiro, mas não vejo motivo para chegar perto. A gente sempre pode fazer um reconhecimento visual para deixar claro que vamos com a cara da pessoa, não é necessário ser BFF de toda criatura bem vestida ou com cara de legal que esbarramos no caminho. Os outros 10% de falta de vida social se devem ao fato de que, quando quero socializar, não sei como proceder. Não sou capaz de chamar uma pessoa para almoçar sem parecer uma louca.

O resultado disso é que sempre estou sozinha. Sempre. Principalmente em ocasiões como escola, faculdade, trabalho. Se estou acompanhada, acredite, é porque ou a pessoa é muito chata e grudenta ou muito não-ignorável. Tipo uma colega minha no Senac que recentemente abriu o cerco do meu isolamento. Ela é uma japonesa cujo pai, ao sonhar que a filha estava em perigo, foi buscá-la no metrô com uma daquelas espadas japonesas. Detalhe: ele não é japonês. Como ignorar uma pessoa dessas?

Eu tenho um amigo, James, que é meu exemplo de vida em termos de socialização. Porque ele não faz o gênero menina mais popular da classe. Qualquer um pode ser a menina mais popular da classe, basta se obrigar a socializar mesmo quando não se tem a menor vontade. James, assim como eu, quase sempre anda sozinho, mas se ele quiser ser seu melhor amigo por quatro horas, passar dois meses sem te ver e aparecer na sua casa sem ser convidado, acredite, ele o fará e você nem por um momento achará que ele é louco ou inconveniente. Podem imaginar o quanto isso é útil a um jornalista, essa coisa de poder falar o que quiser, perguntar o que quiser e de alguma forma misteriosa fazer o entrevistado se sentir entre amigos. A pessoa tem o dom. Um dos dons mais úteis e felizes que alguém pode ter, isso na opinião de alguém que poderia facilmente passar a vida convivendo com menos de dez seres vivos, cinco deles andando sobre quatro patas.

Juliana Cunha

30 comments to O melhor dom do mundo

  • Excelente percepção.

    Um fato curioso aconteceu na minha vida, eu, que sempre fui muito pouco popular, virei um centro das atenções em variadas situações.

    Não sei como, mas quando comecei a trabalhar as coisas mudaram de figura. Era impressionante a quantidade de pessoas que eu jamais acreditaria que fossem conversar comigo. Talvez seja porque eu sou extremamente profissional e honesto nos meus relacionamentos profissionais. Não fico fazendo amizades interesseiras, nem reclamando de tudo e de todos (apenas de quem merece, claro).

    Isso refletiu bastante na interação com pessoas das minhas pós graduações.

    A ironia é que ainda me sinto socialmente inadequado. Mesmo estando cheio de contatos no celular, e-mail e na vida.

  • Tatibithaty

    É, Ju, descobri que não sou a única no mundo com preguiça de conviver.
    Beijos

  • Já tive uma fase Zaratustra, e só fiquei com raiva das poucas pessoas que eram obrigadas a conviver comigo. Daí inventaram o ICQ…

  • Edu

    Mas você tem um dom maior que esse: consegue chegar à distância na mente de quem te lê, e manter quem te lê à distância. Não é preciso que se aproxime demais, mesmo quando seus textos já estão irrevogavelmente dentro de nós.

  • Ana Carolina

    Leio esse blog há bastante tempo e essa foi a primeira vez que criei coragem de comentar. Post sensacional. Só pela simplicidade da sinceridade que ficou estampada. Identificação forte. <3

  • enio

    Lobos da estepe, né?

    =)

  • Eu sou uma osciladora neste negócio do traquejo social. Qdo pequena, eu fui a “primeira flor a brotar na primavera” de toda a família e na escola. Estava lá de pau pra toda obra e completamente adorada. A partir do momento em que precisamos começar a mudar pelo trabalho do meu pai, passei a ser aquela tal figura aberração descrita no início da série Crepúsculo da Stephanie Meyer (meio bizarro, sei disso, mas tem um quê do que eu senti diversas vezes nesse mundo nômade). Aprendi a gostar de ficar sozinha, a dar mais valor a solidão e virar uma devoradora de livros neste período. Na época da faculdade, voltei a ser a super social, não pelo querer ser, mas porque todos achavam a minha “experiência de vida” muito mais interessante do que suas pacatas vidinhas no planalto central em meio a roubalheira do Congresso… A partir daí, vai e volta, vai e volta a cada local em que vou trabalhar, mas acho q acabo preferindo mesmo a solidão… Pois esse acaba sendo o único momento pra bloggar, assistir a um filme ou tevê, ler e tals… Prefiro hj em dia a fama de metida pra poder fazer aquilo que gosto em vez de acabar agradando somente aos outros com toda essa sociabilidade.

  • Obrigada. Abracinhos gerais e mantendo o devido distanciamento.
    :c)

  • Luiz com Z

    É difícil se botar no seu lugar quando se teve praticamente uma lavagem cerebral pró-socialização desde o berço. Mas aí eu lembro do meu irmão e penso: “sí, se puede ser feliz solito”. :)

  • Thati

    Então, eu sou assim na maior parte do tempo, mas tenho fases em que fico sociável, passa rápido mas acontece. Só que quando comecei minha faculdade de História, a galera TODA era o tipo de pessoa que te conhece num dia, e te dá abraço de urso perguntando sinceramente como vc está no outro. Nem preciso dizer o quanto isso mexeu comigo, o quanto foi incrivelmente incômodo no início, eu me sentia uma total freak. Com o tempo eu tive que me render, pq além de tudo 90% daquelas pessoas são REALMENTE interessantes, mas ainda hoje eu faço horas de auto-análise pra lidar com todo esse amor coletivo. A minha sala parece uma comunidade hippie.

  • marina_pb

    [3]
    se consegui fazer amizades até hoje foi por pura sorte ou acaso do destino.
    meu traquejo social é nulo até no msn.

  • Beatriz

    Além de me identificar totalmente com o seu texto, ainda faço minhas as palavras da Marina aqui em cima. Às vezes eu me espanto como o número de contatos no msn (e no orkut) e inversamente proporcional ao número de pessoas com quem eu tenho vontade de interagir. E quando dá vontade de falar com alguém que não falo há muito tempo, eu simplesmente não sei como chegar… sempre penso que a pessoa vai achar que eu tô carente =P

  • Fernanda

    Talvez pelo fato de você ter um corpo feio os homens não a admiram a ponto de sempre quererem puxar um papinho etc… É um preço que se paga por ter a bunda chulada. Mas tem uma chance: preenchimento de silicone, mas é caro. Você vai ter que passar a vida inteira escrevendo besteiras e não conseguirá juntar dinheiro com seu “salário”. Acorda, caipira. São Paulo não é o sertão, não.

  • Pretty girls never die alone.

  • Alexandre

    Fernanda, se essa menina é feia eu não sei o que é bonito
    http://twitpic.com/18t8la

  • Alana

    E quando o casamento acaba pq a pessoa socializa tanto na rua q em casa nao tem mais saco nem pra dizer boa noite?

  • Juliana

    é xará, mais dificil é quando vc é totalmente anti-social e se vê na profissão de professor, como eu cai numa dessas? Vc é obrigado a ser sociável e fazer os outros socializarem o tempo todo, para mim anti-social por natureza é opressor…
    Quero mudar de profissão, ser jornalista? Escrever mantendo o devido distanciamento. Me esconder atrás de uma folha de papel (ou tela do pc) com um texto escrito…

  • Muito, muito bom.
    Admiro muito essa sua capacidade de pegar um tema cotidiano aparentemente sem muita importância e transformá-lo em um texto divertido e interessante.
    Ótimo.
    =)

  • mariana

    fernanda: não pude evitar de imaginar o que você faz com sua bunda, já que ela não é chulada.Haha

  • Tamires

    Você já ouviu falar do livro Inteligência Emocional?
    Tem tudo a ver com esse post e apesar de ser meio boring e ter um q de auto-ajuda fala algumas coisas bem interessantes sobre essa tal capacidade de lidar com as pessoas.
    =D

  • Eduardo

    Legal o texto, Juliana.
    Me identifiquei muito com ele. Traquejo social zero.

  • Eu admiro mesmo gente como seu amigo. Tenho um amigo assim também. É quase como se ele tivesse um botão on/off de sociabilização. Soa um pouco falso ás vezes mas é incrivelmente eficiente.

  • Ramon

    Meu traquejo social é fail. Sempre acabo parecendo um maníaco-obsessivo abordando uma vítima. Autodepreciação mode on: Também não é pra tanto…

  • Gostei da expressão “traquejo social”. Acho que sou munido dele. O segredo, talvez, seja o álcool. Manda pro beleléu as inibições e eu sou um bêbado simpático. Acho.

    Bjs!

  • ana

    me identifiquei totalmente com seu post. e pior, como a Juliana aí dos comentários, eu também sou professora! como eu fui cair numa dessas [2]

    você não está só, Ju. mas o meu caso é pior, ou não. eu tenho fobia social. de verdade. e isso limita muito a minha vida.

    pelo menos você tem um namorado. não que isso seja grandes coisas. :D
    mas nem isso eu consigo ter.

  • Renato

    Gostei muito do seu texto. Me identifiquei completamente. Não sinto nenhum impulso em me aproximar das pessoas, e isso reflete até na interação na Internet, onde raramente comento um texto (acho um pouco inútil).

  • Meu traquejo social é bom, mas não faço questão alguma de socializar. Acho incoveniente estar cercada por pessoas todo o tempo.

    Gostaria de ter visto alguém no metrô com uma katana.

  • Gostei da sua postagem e me identifiquei.
    Mas não acho que eu não tenha traquejo social, eu tenho, considerando que superei uma timidez terrível da adolescência qdo comecei a trabalhar e tive que (mesmo forçadamente) interagir mais com as pessoas.
    Só acho mais difícil a convivência próxima tipo c/ a família e agregados. Ah, sabe aquelas pessoas que são próximas mas não por afinidade? Então. Gosto de fazer novos amigos, mas só qdo isso acontece naturalmente. Na maioria das vezes tenho preguiça (e vergonha) de iniciar uma aproximação.

  • manoela

    seu blog é uma completa delicia, mas o fundo embaralha minha visão! preciso de um oculista ou alguem também já reclamou disso?! bjs!

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