Gerador de Deprimidos

O Governo de São Paulo teve a brilhante ideia de gerar uma ferramenta para causar epidemia de depressão na população, além de suicídio juvenil. A coisa se chama Salariômetro e calcula o salário médio dos admitidos nos últimos seis meses no mercado de trabalho formal para o perfil que você indicar. Por perfil entenda função, faixa etária, cor, gênero e escolaridade.

Além de constatar as óbvias diferenças de remuneração entre brancos e negros, homens e mulheres, você ainda pode reparar (quer dizer, sei lá se você pode, sei lá se você é homem-branco-médico-doutor-35anos) que todos os caminhos nos levam a pobreza. Coloca lá “jornalista”. Merreca de salário. Agora tenta “editor”. Mesma coisa. Que tal “designer”? O sonho terminou. Vamos partir para a baixaria e provar o gosto do “professor”? Pronto, acabaram minhas opções na vida. Em pensar que há algumas semanas  vi a imagem que ilustra esse post e achei deprimente. Deprimente não é estar fadada ao computador, é estar fadada ao metrô.

Sobre a diferença de salário entre homens e mulheres, é uma coisa que me incomoda pessoalmente pelo óbvio fato de que experimento isso e porque, na minha opinião, gera mais contradições cotidianas. Contradições que não se resumem às estatísticas, mas que entram nas casas das pessoas, nos casamentos delas. Quer dizer, se eu fosse negra, meu marido fosse negro e meus amigos próximos também fossem negros, eu poderia me iludir que não estou sendo socialmente lesada, que os salários são ruins para todo mundo e que, ao contrário do que Lênin aconselhava, a gente socializava a miséria. Mas o que fazer quando se é mulher? Acho uma coisa bonita de meu deus esse feminismo que fez com que a gente adquirisse o direito sagrado de dividir as contas de maneira milimetricamente igual, mas esqueceu de dividir as tarefas, o salário etc etc.

Juliana Cunha

11 comments to Gerador de Deprimidos

  • “Deprimente não é estar fadada ao computador, é estar fadada ao metrô” é meu novo ditado predileto pro post do Ouvindo Coitado

  • E se vc é formado, tem mestardo e está sem trampo? entra na lista?

    é, deprimente mesmo.

    belo post

  • Alana

    Er, eu… eu, eu acho que se vc for mais de uma coisa simultaneamente você pode somar os salários, freela esperta.

  • Mas na boa? relaxa. Ele calcula a média. Bom, na média todo ser vivo tem, sei lá, 2.73 patas.
    Se meia dúzia de babacas ganha 200 reais pra ser editor de conteúdo do http://www.sitewhathever.com e outra meia dúzia ganha milhares pra ter um emprego de verdade, a média não seria muito animadora, right?

  • Alana

    Meldels, antes que a parcela doentia que frequenta seus blgs venha me acusar de alguma coisa, “freela esperta” não é ironia, auditório.

  • Ramon

    Pelo menos é fadada ao metrô, já que nem isso tem aqui em Salvador. E, o que se faz quando o salariômetro acusa que ninguém foi admitido na sua área nos últimos 6 meses? Se joga debaixo de um desses “veículos para transporte coletivo”, né? Mais um pobre deprimido na área.

  • Vai mais um ditado da vovó: “quem não sabe sofrer, sofre dobrado”. Vamos todos sofrer juntos!

  • É incrível como de pontos de vista distintos a gente consegue ser até admirado, mas a partir do nosso próprio achamos um fiapo de fracasso.
    É praticamente uma regra. E varia na escala da insatisfação de acordo com o binômio necessidades versus possibilidades. É pegar quanto ganhamos e pôr de um lado da balança e quanto achamos que merecemos do outro, pegue também quanto gastamos e quanto mais precisamos gastar e inclua nesta conta. O resultado da relação realidade X expectativa, talento x oportunidade, etc e etc é quase sempre negativo, principalmente quando se é jovem, talentoso e exigente. Não raro esperamos mais de nós.

  • Deprimente não é estar fadada ao computador, é estar fadada ao metrô [2]

    fato.

  • Daniel

    Deve ser mais deprimente ainda passar por tudo isso… morando em São Paulo. Não é uma piada!

  • Essa ilustração é um clássico instantâneo. Esse Boxbrown é conhecido? Maravilhosa.

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