Estou pessoalmente ofendida com as besteiras que blogs e jornais têm escrito sobre o Salinger desde ontem à noite. Eu sei muito bem que quando a gente gosta e entende de um autor nunca vamos ficar 100% satisfeitos com a cobertura da obra/vida dele porque jornais foram feitos para todo mundo e isso significa que eles precisam sim manter um certo nível de superficialidade, afinal, não se trata de veículos para entendidos em nenhum assunto específico. No entanto, eu acho que quem leu a cobertura sobre o Salinger sabe menos do que quem não leu, e isso é bem complicado jornalisticamente falando.
Quem leu a cobertura sobre o Salinger acha que existe um livro dele ainda não editado no Brasil quando, na verdade, todos os livros publicados foram traduzidos. O que ele tem são inúmeros contos publicados principalmente na New Yorker e que não foram reunidos em um livro nem aqui nem na China. Alguns contos dele estão em coletâneas com outros autores, mas jamais foram reunidos em algo do tipo “Coletânea da Família Glass” ou “309 estórias”. Por que diabos a Folha decidiu que um conto específico (no caso, “Hapworth 16, 1924″) era um “livro” não editado em português? Não consigo compreender. Assim como não consigo compreender o mau gosto de Estadão em publicar a foto do Salinger tirada por um paparazzi quando ele ia ao mercado, já recluso em Cornish.
Quem leu a cobertura sobre o Salinger acha que O Apanhador no Campo de Centeio é um “manual do desajustado”, “inspirou psicopatas” e que o livro faz “críticas à burguesia”. As piores matérias chegam a dizer que Holden Caulfield é um “adolescente transviado”. Onde um personagem que não usa drogas, vai ao bordel para conversar e tem um profundo respeito pelos pais e devoção pela irmã mais nova é transviado? James Dean ligou e pediu o termo de volta. Parece brinks, mas estou fazendo citações literais de alguns dos maiores veículos de imprensa do Brasil.
Embora ninguém tenha falado nada substancial sobre os livros e nem mesmo traçado as características mais importantes da literatura dele, todos os veículos que eu acompanho deram matérias sobre os livros maledicentes e pessoais escritos por Margaret Salinger e Joyce Maynard. É claro que o nosso Salinger é esperto o suficiente e já sabia que isso aconteceria. Ele sabia que, no final das contas, todo mundo ficaria sabendo que sua filha disse que ele bebia o próprio xixi, mas quase ninguém poderia supor que o Seymour reflete a concepção de “artista vidente” de Rimbaud.
Tem um trecho do Seymour: uma apresentação que diz o seguinte:
“Seria absurdo afirmar que a atração pela poesia da maior parte dos jovens é de muito excedida por sua atração pelos detalhes da vida do poeta, abundantes ou não, que poderiam ser aqui definidos, sem rigor técnico, como escabrosos. Mas esse é o tipo de ideia absurda que, um dia, eu talvez venha a testar cientificamente. De qualquer modo, tenho a mais absoluta certeza de que, se pedisse às sessenta tantãs (ou melhor, às sessenta e tantas moças) que compõem minhas duas turmas de Literatura para Publicação – a maioria no último ano da universidade, todas se formando em Língua Inglesa – para citarem uma linha, qualquer linha, do ‘Ozymandias’, ou pelo menos para dizerem do que se trata o poema, duvido que dez delas pudessem fazer uma coisa ou outra; mas apostaria minhas recém-plantadas tulipas que umas cinquenta seriam capazes de me dizer que Shelley era inteiramente favorável ao amor livre, que uma de suas mulheres escreveu Frankenstein e que a outra se suicidou por afogamento”.
Segundo a reportagem do New York Times, um vizinho disse que Salinger continuava escrevendo e tinha pelo menos quinze livros guardados em casa. O semi-biógrafo dele, Ian Hamilton, também já tinha dito que ele continuava escrevendo e escrevendo muito, principalmente sobre a Família Glass. Eu espero que ele não tenha queimado todo esse material, até porque Salinger mostrava uma simpatia perigosa pelos escritores de haikai que rasgavam o poema logo depois de escrever, pois acreditavam que o importante era o processo, não a duração daquela obra. Mas, considerando que os livros existam e sejam publicados, me incomoda o fato de que os novos dono dificilmente terão o cuidado de cumprir as exigências do autor. Exigências que parecem frescura para alguns, mas, sabe de uma? a pessoa tem direito inclusive de ser fresca.
Salinger quer que os livros dele sejam publicados sem ilustração, sem orelha, sem prefácio ou posfácio, sem biografia ou foto do autor, sem listagem de outras obras do autor ou da editora, sem nada escrito na contra-capa. Ele não quer que os livros sejam anunciados de forma alguma, não quer cartazes de lançamentos ou propagandas e, sobretudo, ele não quer adaptações cinematográficas. Ou seja, é um autor que quer ver seus livros lidos pelo que são, não por quem escreveu, quem ilustrou ou mesmo quem indicou.
A maioria dos escritores atuais não se atreveria a fazer semelhante exigência porque sabem que o que existe entre a página de rosto e o cólofon não se sustenta por si só. Os livros do Salinger se sustentam muito bem e ainda querem me convencer que ele fez isso tudo bebendo xixi. Sendo assim, tudo que posso pedir é que, antes de vasculharem as estantes do Salinger e me dizerem quais autores contemporâneos ele lia, antes de darem conta desses quinze livros inéditos, gostaria que me mandassem uma dose da melhor safra desse xixi.
Juliana Cunha

Li só “O Apanhador no Campo de Centeio” e achei legalzinho. Tem outro livro dele que possa me impressionar mais? Beijos.
são tempos terríveis de adoração à vida privada, aos detalhes sórdidos… não há produção artística que resista à cultura-BBB.
gostei muito do texto.
Eu ainda achava que alguma coisa não havia sido publicada. Pelo (pouco) que sei, há 4 livros dele, que são o Apanhador, F&Z, Seymour/Cumeeira e 9 Estórias. E eu achava que a gente tinha parado nas edições antigas, mas pelo visto há edições novas. Tanto que comentei isso em algum blog e agora estou envergonhada, mas nada que uma mea culpa e mais conhecimento de causa não resolvam.
Tomara mesmo que consigam cumprir as exigências. Se o Salinger fez um testamento e deixou tudo especificado e bem determinado (e eu espero que ele o tenha elaborado), vai ser mais fácil manter o controle sobre sua obra. Se não, tudo vai depender dos herdeiros, sendo que uma já fez um livro fazendo pouco caso do pai. Não sei da índole do outro filho, e não sei se há mais gente para cuidar disso, ou se vai ficar a cargo do editor/agente/whoever do Salinger. O caso é aguardar.
Estou vendo que vc é bem fã do homem. Eu tenho uma grande admiração por ele e especialmente pela família Glass, mas nunca fui atrás de saber mais, conhecer o autor e essas coisas. Ele é o tipo do autor com quem eu gostaria de tomar café e bater papo sobre qualquer coisa. Agora que ele se foi, quem sabe não aprendo mais? E resolvo ter os livros, ao invés de alugar em bibliotecas? Vc também sente vontade súbitas de ler, digamos, Franny numa terça-feira chuvosa?
“Assim como não consigo compreender o mal gosto de Estadão” não combina com o nível de seu blog. No mais, concordo com suas idéias e digo que o conto da pequenina Esmé, em Nine Stories, é o ponto alto da obra publicada pelo amado Salinger.
Juju,
eu também usei a mesma foto do Estadão no meu blog, ontem. Um amigo ficou chateado comigo por isso, então vou escrever a você mais ou menos o que eu disse a ele. Não sei as causas pelas quais o Estadão usou a foto, mas, no meu caso específico, acho a foto bastante significativa porque eterniza a sensação de incômodo que ele sentia em relação ao que se esperava dele. Uma foto em que Salinger esteja tranquilo, pacato e sorridente sob as lentes de um fotógrafo que quer explorar sua fama não combina absolutamente em nada com ele, não está de acordo com a vida que ele optou ter e com as ideias que ele tinha a respeito das expectativas externas às quais um artista supostamente deve satisfazer. Então, me defendo – e defendo o Estadão – por acreditar que, caso se queira mostrar alguma foto do Salinger, a foto é essa. E ela deve ser mostrada mesmo, como uma forma de mea-culpa e como uma forma de mostrar a vergonha alheia eterna que foi o desrespeito com a vida de alguém que, independentemente de que raios tenha sido entre quatro paredes (não sei, não tenho ideia e nem me interessa), foi um dos escritores mais sensíveis e, apesar disso, simples, que existiu na literatura universal. A contragosto, irritado, desgastado, incompreendido – que é o que ele sempre foi. Ao contrário de você, que entende bastante sobre ele e tem um blog espetacular a respeito, o que todo esse pessoal “especializado” tem feito é se esforçar por dar rótulos superficiais para preencher matérias de emergência. Quando, no fundo, Salinger não é um escritor pra ser rotulado ou compreendido; ele é apenas pra ser sentido por quem se sente confortável por ter lido tudo de tão simples, natural e sensível que ele escreveu.
À parte essa questão da foto, concordo plenamente com tudo o que você disse, e achei bárbara a evidenciação de Rimbaud no Seymour.
Beijos.
Na minha opinião Salinger é muito mais “nome” do que “texto”.
cara uma vez eu estava super a fim de uma colega de trabalho e, num final de expediente, morto de cansado e com os olhos exaustos, tb escrevi “mal gosto” num e-mail…tentei de tudo pra consertar: erratum, trechos de Dante falando de Beatriz, críticas ao Chavez, mas foi inútil…eu sei que foi aquilo que arruinou tudo…ai,ai…mas voltando ao tópico, “fill us with Salinger”, Juliana….vc não tem um artigo publicado num dos teus blogs (eu vi mas “me perdi” dele)? Estamos (acho q falo em nome de todos, não?) querendo saber mais sobre ele.
Nossa,tbm tô sentindo algo semelhante em relação a morte dele.Ótima colocação do texto,Juliana.
Falando em O apanhador…quarta-feira estava lendo ‘It Girl’(Cecily von Ziegesar,sim de Gossip Girl) e gostei da parte em que a personagem Brett está lendo ‘O apanhador’,enquanto todas as colegas estão preocupadas com uma festa.Daí Salinger é citado,etc…O trecho/fragmentos:
“Brett estava deitada na cama com o vestido de seda esmeralda de Rifat, parecendo uma estrela de Hollywood lendo O apanhador no campo de centeio…”
“Mas O apanhador no campo de centeio conseguiu fazer com que ela se sentisse um pouco melhor. Brett adorava o livro todo, mas os primeiros capítulos eram seus preferidos. Holden Caulfield era tão arrasado e tão claramente deslocado naquela escola preparatória cara, que Brett tinha certeza de estar apaixonada por ele, pelo menos um pouco. A parte em que ele diz que às vezes, depois de terminar algum livros, sempre quer ligar para o autor- era uma coisa que Brett sentia toda vez que lia Salinger ou Dorothy Parker. Ela queria ligar para Salinger e lhe dizer o quanto se sentia como Holden às vezes, mas que ela disfarçava melhor. Uma batida delicada na porta arrancou Brett de seus devaneios. -…”
“Os olhos de Kara baixaram em O apanhador no campo de centeio. – Esse livro é ótimo… Está lendo para o curso de inglês? -Não. – Brett olhou o livrinho branco, a capa trazendo apenas o título em preto no meio e uns riscos de arco-íris minimalistas que cruzavam o canto em diagonal. Eal adorava isso também. – Acho que só leio quando estou deprimida. Kara assentiu sabiamente, os olhos castanho esverdeados se arregalando de solidariedade. – Holden é tão fodido da cabeça – disse ela com ternura.- Ele sempre faz a gente se sentir melhor. Exatamente. Brett não conseguia imaginar por que nunca conheceu essa garota….”
Excelente post.
Só li O Apanhador no Campo de Centeio e não sei, sinceramente, como podem achar o livro ruim. Conhecia o Nove Estórias, mas nunca li. E confesso que, depois daquela citação do post anterior, fiquei bem mais interessado no autor. Por onde começar?
Este foi o título de post que mais combinou com o nome do blog.
Oh, Juli, acho a exigência de Salinger babaca e exibicionista, rescindindo àquele anticapitalismo básico e, como não, marketeiro, pra galera.
Não é um julgamento de valor sobre a obra de Salinger. Quando eu li O Apanhador, tinha 25 anos e falei: “PQP, eu TINHA que ter lido isso aos 17!”. É o que eu penso ainda, e isso não é um elogio.
Um jornal alemão, por outro lado, fez uma matéria grandinha falando da obra mesmo, e depois pondo umas dez pessoas para falarem sobre a primeira vez que elas leram algo do homem. Depois vi o negócio do “manual do desajustado” e, bem… sem palavras.
Nem todo escritor de haikai rasgava seus escritos – ou não tinham tantos escritos e publicados, desde Bashô. Ficou generalista. O risco de derrapar na artificialidade é maior do que se imagina.
A questão é o leitor saber disso. E se aprofundar nos que lhe interessar mais. Mas não contar com a ajuda de jornais para isso.
Preguiça de algumas pessoas que comentam aqui, viu? Os senhores eu-nunca-cometi-um-erro-nem-me-apaixonei-por-nada-na-vida.
[motivo pelo qual eu leio todos os posts e quase nunca comento]
Felizmente, houve esse post em que eu me obrigo a comentar por ser o mais perfeito que li sobre o assunto.
Costumo agradecer quando leio esse tipo de texto por ele livrar os melhores de nós de salvar um pedacinho da humanidade.
Obrigada.
P.S.: Duas doses pra mim, por favor.
Isso, fiquei curiosa pelo autor. Um bom texto sempre causa um interesse maior pelo assunto. Confesso que perto de você, sou absolutamente ignorante do assunto.
fica o agradecimento e a curiosidade.
Amigos,concordo plenamente c/essa articulista.Digo a vcs ,ela sabe das coisas…
Salinger me marcou,como marcou minha geração.
N/cheguei ao ponto de comprar milhares de exemplares do “Apanhador”,como o taxista psicótico do filme “Teoria da Conspiração”,mas,esse livro me acompanhou desde meus 12 anos até hoje,avó e bisavó.
É isso ai,caras-pálida minha geração lia muito e sério;ainda n/existia a TV,a nossa mais completa perdição,e,idrolatravámos nossos autores como hoje vcs idolatram atores globais.
Parabéns,grande articulista.
Que pena,aposto q/a Folha e o Estadão n/estão interessados em nós…
Adorei teu texto, Juliana, um artigo muito bem escrito e cujas críticas à imprensa se justificam, nesses tempos – profetizados não apenas por George Orwell, mas até por escritores mais insuspeitos como meu idolatrado Dostoiévski – em que a vida do autor, ou melhor, as fofocas a respeito da vida de tantos autores controversos, vendem mais jornal que críticas de obras suas nos cadernos de cultura. E isso não vale apenas para os autores, claro, é um sintoma perene da era-BBB. Confesso que detalhes picantes ou escabrosos da vida de autores me interessa sim, e sobremodo, mas ainda acho melhores quando servem de mote para críticas e reportagens sérias e bem elaboradas, por gente que entenda o necessário de literatura. Isso sem falar dos erros, e interpretações grosseiras a respeito da obra do Salinger, que cometeram nessas reportagens, conforme mencionaste.
Quanto à obra do Salinger em si, prefiro sensatamente calar-me, pois nunca li nada dele. Divulgarei esse teu artigo no meu tumblelog. Parabéns!
Azo51W utgvvrsvynfe, [url=http://usvaouqifyez.com/]usvaouqifyez[/url], [link=http://qpgibudfjnhz.com/]qpgibudfjnhz[/link], http://ordmhlnjpdcc.com/