Scrooge e o natal

Há algumas semanas a coluna do Contardo Caligaris falava sobre uma pesquisa de Joel Waldfogel, professor da Universidade da Pensilvânia, que dizia que para quem os recebe, nossos presentes costumam valer um pouco mais da metade do que nos custaram. Ou seja, você compra uma camiseta de R$ 50 para a sua mãe e ela, se fosse comprar a mesma camiseta com seu próprio dinheiro, não daria mais de R$ 25 no referido trapo.

A pesquisa de Joel foi feita de seguinte forma: ele perguntou a várias pessoas de contextos culturais diferentes quanto elas pagariam pelo presente que haviam acabado de ganhar. No Brasil, essa pesquisa foi feita em 2008 e constatou que os presenteados só pagariam em média 47% do valor que o presente tinha custado de fato. Ou seja, a cada vez que você dá um presente, rasga dinheiro.

A teoria de Joel Waldfogel é de que essa disparidade entre o valor do presente e o quanto o presenteado gostou do objeto em si faz com que o natal seja uma espécie de calamidade financeira para os consumidores na qual gastamos dinheiro demais e não ganhamos coisas tão legais assim em troca. É claro que isso faz ele defender o vale-presente, o “presente útil”, o envelopinho com dinheiro muito adotado pela minha avó e outras coisas que, na minha opinião, descaracterizam completamente o sentido do presente.

O nome do livro em que Joel publicou sua teoria prova que ele não está muito aí para descaracterizar o simbolismo por trás de um presente: o livro se chama “Scroogenomics – Why You Shouldn’t Buy Presents for the Holidays”. O nome é uma referência ao personagem Ebenezer Scrooge, do livro “Um conto de natal”, do Charles Dickens. No livro (assim como no filme “Os Fantasmas de Scrooge”, que está em cartaz), o protagonista é um homem avaro e anti-natalino.

Eu acho que o hábito de presentear ainda é um das demonstrações mais claras de civilidade que nós temos, além de ser completamente delicioso. É uma das únicas oportunidades em que nós paramos de nos preocupar com o que nós queremos e gostamos e tentamos decifrar o que a outra pessoa gostaria. A gente pode passar o ano inteiro sem prestar atenção ao que nosso pai ouve ou ao tipo de jogo que o namorado passa horas no Playstation, mas quando vamos dar um presentes somos obrigados a esse tipo de exercício, a pensar em quem é aquela pessoa e do que ela gosta. O hábito, por exemplo, de sempre dar algo que você mesmo gosta em vez de algo que a pessoa vá gostar diz muito sobre você como presenteador e como pessoa auto-centrada.

Você consegue medir o quanto uma pessoa te conhece pelo tipo de presente que ela te dá. Às vezes, olhando para os presentes que as minhas tias me dão, fico pensando onde elas estiveram nos últimos 22 anos, como conseguem conviver comigo há tanto tempo e não ter a menor noção de quem eu sou.

Com toda a humildade de pessoa nada científica, acho que a pesquisa de Joel chegou a conclusão errada. O problema não está na inutilidade dos presentes nem na insatisfação dos presenteados, e sim nos presenteadores. Se já não sabemos escolher algo que a nossa mãe valoriza o problema está com a gente, com o quanto não prestamos atenção ao que ela gosta e como, na verdade, sempre queremos impor o nosso gosto. “Vou dar esse livro pra ver se ela se interessa pelo autor que eu gosto”. “Vou dar uma bermuda pra ver se ele se veste como eu quero que se vista”. Ninguém está disposto a pagar por catequese. Nessa perspectiva, acho que 47% do valor ainda foi muita, muita generosidade dos nossos pobres presenteados.
Juliana Cunha

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13 comments to Scrooge e o natal

  • Cauê Marques

    O bom de ganhar presentes é que você recebe coisas que talvez nunca investisse seu dinheiro para comprar, porque são caras demais. É nesse ponto que o pesquisador erra: querer pagar menos por um ítem qualquer não necessariamente significa que você não quer aquele ítem. Significa que você não o quer pelo preço que ele tem. Se alguém aceita pagar aquele preço porque acha que você merece ganhá-lo, então é você que está sendo valorizado, não o ítem.

  • Parabéns, acho que vc acertou na mosca.

  • LT

    Nossa, Jucú, lembrei tanto da minha mãe e da coleção coisas-feias-da-Lacoste que ela me dá. Mas e o livro, gostou?

  • O Homer deu uma bola de boliche pra Marge. Tsc, tsc.

  • Alana

    Luv U, writer.

  • Fábio Espiga

    Não gosto do natal mas o exercicio de presentear costumo pratica fora do “circuito” natal, dia disso, dia daquilo. lembro de pessoas que costumam me dar presentes que elas adorariam mas nunca notaram que n tinha nada haver comigo

  • Dei de amigo secreto um brinco que realmente achei que combinasse com a pessoa, e que eu nunca compraria pra mim. Ela “adorou” tanto que esqueceu o presente na hora de ir embora. Triste, né?

  • Dee

    Presente bom é aquele que você TEM CERTEZA que a pessoa quer/precisa.

    Eu prefiro não ganhar nada a ter que aceitar uma coisa que não me agrada. É muito chato ter que mentir que gostou e pior ainda dizer que não.

    E também comprar presente em data comemorativa é uó. Minha mãe sempre teve aquela de coisa de comprar e dar quando pode/quer e me passou isso.

  • Eu já estou acostumada a ouvir falar em pesquisas inúteis com resultados pouco práticos, mas esta aí deste tal “Joel Waldfogel” não se encaixa nem nas úteis e imprescindíveis, nem nas bizarras e idiotas. Fica ali passeando entre aquelas pesquisas potencialmente interessantes com um resultado decepcionante. O ruim não é a pesquisa, é a interpretação rasteira e prática demais que o autor do estudo deu ao resultado final obtido a partir dela. É como ter as melhores uvas e o melhor vinho e usar tudo pra fazer vinagre. Porque acabar com o costume de presentear é como substituir o ato de comer por pílulas de astronauta. Bem mais prático e sem desperdício.

  • Leonardo

    Será que ao dar o presente em forma de moeda corrente, a pessoa que sabe não lhe conhecer ao ponto de lhe presentear com o que vc quer, não demonstraria um grande interesse em sua felicidade ao escolher lhe possibilitar o meio para que vc decida qual será o seu presente?

  • Ótimo texto e argumento, amei.

    Eu sempre tive crises existenciais ao comprar presentes!
    O motivo de não ter certeza do que a pessoa quer, de dá uma sensação de alienigena. Eu tento sempre verbalizar as coisas que gosto, comentar sobre coisas que achei sensacional, ou passear no shopping com pais, namorados e amigos e babar explicitamente certas vitrines, para facilitar. Mas como você disse, eu sempre fiquei triste como as pessoas que não conhecem a gente. Parentes, então… Depois de ler isso fico pensando se família é realmente indispensável…porque meus amigos sabem me dar prsente no alvo. :P

  • Ótimo texto e argumento, amei.

    Eu sempre tive crises existenciais ao comprar presentes!
    O motivo de não ter certeza do que a pessoa quer, de dá uma sensação de alienigena. Eu tento sempre verbalizar as coisas que gosto, comentar sobre coisas que achei sensacional, ou passear no shopping com pais, namorados e amigos e babar explicitamente certas vitrines, para facilitar. Mas como você disse, eu sempre fiquei triste como as pessoas que não conhecem a gente. Parentes, então… Depois de ler isso fico pensando se família é realmente indispensável…porque meus amigos sabem me dar presente acertando no alvo. :P

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