Sobre benefícios de virar cadeira

Eu assisti Julie&Julia e fiquei pensando sobre aquela parte em que ela está jantando com o marido enquanto pensa em que tipo de profissão poderia ter. Ele pergunta “O que você gosta de fazer” e ela responder “De comer! Eu cresço a olhos vistos” e então vai aprender a cozinhar. O meu talento é para me martirizar. Eu poderia dar workshops disso, poderia ficar rica, mas, aparentemente, as pessoas estão tentando aprender o oposto. Eu só queria saber qual a profissão ideal pra isso, sabe. Jornalista freela é um matírio financeiro, mas eu quero mais, quero algo em que o martírio seja o fim e não apenas um lado ruim. Eu tenho, por exemplo, uma pastinha apenas com e-mails que me machucam. Quando acho que estou prestes a ficar feliz demais, vou lá, leio algumas coisas e volto ao normal. Os outros truques só divulgo mediante remuneração, mas diz aí se esse não é bom?

Daí hoje eu vi Tokyo e fiquei pensando naquele curta do Michael Gondry sobre a menina que vira cadeira e como seria bom se isso fosse realmente uma opção. Sabe, ficar em casa, recortando revistas, lavando a louça, olhando a vida passar e, eventualmente, servindo de mobília. Acho que o nome técnico para isso é dona de casa.

Por fim, tem aquela cena do “A Partida”, um filme japonês que eu fui ver meio a contragosto, em que o violoncelista pensa que pediu a esposa em casamento falando que eles viveriam em turnê, que tudo seria incrível, mas nada disso aconteceu e ele gostaria de ter percebido antes quais eram os limites do talento dele.

Eu gostaria muito de mandar um e-mail para minha versão cinco anos mais nova dando a real sobre os limites do meu talento, da minha capacidade de superar coisas e de como a minha insegurança seria constantemente usada contra mim em todos os campos de atuação.

Juliana Cunha

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