Dois mágicos

Eu tenho esse amigo que faz análise com uma velhinha careira há algum tempo. Ele acha que nós devemos fazer análise com uma pessoa pela qual a gente não sinta nenhum tipo, ainda que remoto, de atração . Ele acha que se você fizer análise com alguém que um dia, talvez, quem sabe, numa situação de extrema fragilidade, depois de muita bebida e sem os óculos, você estiver disposto a se envolver, então não vai funcionar. Porque, segundo ele, você sempre vai tentar dar uma melhoradinha na sua imagem. Você nunca vai mostrar todas as crecas espirituais a uma pessoa com quem pode se relacionar um dia.

Talvez faça sentido. Não tenho como saber porque até hoje só fui atendida por mulheres e por um tio que era amigo do meu avô. De qualquer forma, isso que o meu amigo diz sobre “se você não tem interesse nenhum pela pessoa, então pode contar 100% da verdade sobre você” não cola. Ele não pode, por exemplo, dizer para a analista que escolheu ela entre todas as outras psicólogas da cidade porque ela é feia e velha. Sempre tem algo que a gente não pode contar.

A teoria de Gandalf é mais ou menos uma radicalização clínica da minha teoria de que amizades entre pessoas que sentem algum tipo de atração uma pela outra são fadadas à superficialidade. O que não necessariamente é ruim já que não buscamos um melhor amigo a cada esquina.

O mesmo não ocorre com amizades entre pessoas que já sentiram alguma coisa uma pela outra. Acho que ex-namorados tendem a ser ótimos amigos e também muito sinceros. Ontem mesmo eu estava falando injustamente mal de alguns aspectos do meu relacionamento com um amigo ex-namorado. Estava contando sobre uma situação, mas estava maquiando a situação, como naqueles photoshops para voz que os maus cantores usam. Não que fosse a minha intenção maquiar, mas a gente quer tanto ouvir do nosso interlocutor que estamos certos e a outra pessoa está errada que acabamos omitindo algumas coisas. E é nesse ponto que a pessoa que te conhece bem te desarma. Você diz “ele estava gritando comigo” e ela pergunta “o que você estava fazendo enquanto ele gritava? Meditação?”.

Tem um episódio de Seinfeld onde o Jerry fala que a amizade entre ex-namorados é como dois mágicos tentanto entreter um ao outro. A pessoa já conhece seus truques, não vai cair neles. Acho essencial ter um amigo assim porque, embora eu também conheça os meus truques, eu sempre caio neles.

Juliana Cunha

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4 comments to Dois mágicos

  • Karina

    Putz, guria, acho você muito foda. Leio uns trocentos blogs e não comento em nenhum (sou curitibana – não falo com estranhos), mas tinha que te escrever. Um abraço!

  • Uma falha na teoria de seu amigo é que quando você encontra alguém que acha lindo, foda, sente atração e resolve ficar com ele, em algum momento sua máscara vai cair e você só vai conseguir demonstrar seu lado mais obscuro, doentio e sincero. O mesmo valendo para o bonitão escolhido. Então na terapia é a mesma coisa, não?

  • Hello,
    Where are you from? Is it a secret? :)
    Doggy

  • “…a amizade entre ex-namorados é como dois mágicos tentanto entreter um ao outro. A pessoa já conhece seus truques, não vai cair neles. Acho essencial ter um amigo assim porque, embora eu também conheça os meus truques, eu sempre caio neles.”

    Onde eu assino????

    MJ

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